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Amelices e outros estados de alma

50 e´s ainda à procura do sentido da vida.

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Amelices e outros estados de alma

06
Jun17

O “meu homem”.


Beia Folques

Expressão utilizada em Trás-os-Montes pelas mulheres para designarem o marido, companheiro, namorado.

Em miúda, adolescente e até à relativamente pouco tempo quando ouvia esta expressão causava-me estranheza pela rudeza da mesma. O “meu homem” é conectado com sentimento de posse, algo primário. A minha geração foi educada para não pertencer a ninguém, nem ninguém ser “seu”. Foi criada para ter um namorado, marido, companheiro ou esposo, o que seja mas não com aquele caracter de retenção e exclusividade absoluta, propriedade. A nossa preparação foi para sermos autónomos, ser o nosso sustento, ser responsável por nós, pelos nossos sonhos e ambições pelas nossas decisões. Ter alguém como parceiro para partilhar, dividir, nunca sobrecarregar ou pesar.

Ao usar o termo o “meu homem” existe aqui uma enorme confiança no outro, uma entrega, rendição total da mulher. Este “meu homem” é vital para a mulher. Transfere-se para ele a carga da relação, é o homem. Rendição é uma não palavra para mulheres como eu, a confiança é possível mas estamos sempre alertas. Fomos criadas para questionar, cautelosas, criticas, observar, comparar, interrogar. Este é o resultado da nossa formação para sermos modernas e independentes.

Falando com algumas destas mulheres ainda é assim que tratam os seus maridos, companheiros de uma vida que já morreram, o “meu homem”. Esse cunho que imprimem que os distingue de todos os outros é lindo. Apesar da rusticidade da expressão, agora e só agora admito que é a maneira mais romântica para tratar o ente querido.

Pena tenho que com tanta civilização, socialização, preconceito, evolução não consiga assim definir alguém. Também é verdade que os homens da minha geração foram educados para não terem essa carga, esse peso na relação sobre eles.

Com tanta evolução algo se perdeu. Deve ser maravilhoso confiar cegamente e poder se entregar sem reservas nem restrições de uma forma tão inocente e total. Poder sobrecarregar sem complexos nem sentimentos de culpa. Ter alguém que aceite essa responsabilidade e passe a ser o fiel depositário da tua vida, teres a confiança extrema de o incumbir dessa missão.

O “meu homem” é só e simplesmente isso sem papéis, nem aquisições, sem contratos. É algo elementar que remonta ao principio da civilização. São duas pessoas que se têm uma à outra sem regras pré- estabelecidas é mais simples e talvez não o seja pois a base é a confiança. Tem a ver com a essência das relações amorosas, é dar, acreditar, confiar, entregar.

O meu marido, o esposo (palavra que abomino) já denotam uma sociedade, é o resultado de ter contraído matrimônio, fez-se um pacto, uma união escrita, contratual.

O maior dilema que se coloca caso se queira fazer uso dessa expressão é que as mulheres são educadas para serem seguras, fortes, independentes, autossuficiente. Ao verbalizar o “meu homem” teriam que assumir a sua fragilidade, a sua dependência e submissão. Logo não poderá fazer parte do nosso léxico. Ficamos com os predicados, o politicamente correcto do marido ou com o companheiro ( que me sabe a pouco para uma relação amorosa) , do sensaborão, tedioso e foleiro esposo.

Lamento não ter esse rasgo e poder dizer o “meu homem”, mas já é tarde.

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