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Amelices e outros estados de alma

50 e´s ainda à procura do sentido da vida.

50 e´s ainda à procura do sentido da vida.

Amelices e outros estados de alma

20
Abr18

Guiné Bissau, 24 de Abril de 1974.


Beia Folques

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O meu pai é Militar e a família acompanhava-o em todas as missões. Fiz Angola, Lamego, Tavira, Guiné. Eu posso dizer que tinha o serviço militar feito aos 8 anos de idade.

Nesse dia estava na 3ª classe numa escola pública em Bissau, no mais inóspito de África. Guiné é uma África muito particular.

O primeiro confronto com aquele país foi com o clima. O clima extremamente húmido e quente, depois as estradas em bruto, os abutres que havia por toda a cidade, o batuque constante vindos das sanzalas durante a noite, os morcegos que saiam da biblioteca municipal no lusco-fusco, por fim as casas dos oficiais que eram tristemente confortáveis. Lembro-me na altura o meu pai ter sido ferido em combate. O Governador da Guiné na altura que era o General Spinola ter se disposto imediatamente em ir visitá-lo lá a casa. Para o General Spinola não ficar incomodado com a parca mobília que a nossa casa tinha (casa essa disponibilizada pelo Exército) os nosso vizinhos do lado, o agora Gen. Almeida Bruno e o Cor. Matos Gomes cederam parte da mobília da casa deles para compor a nossa, para suavizar o ambiente.

Guiné é uma África extrema. Além da guerra se desenrolar de uma forma muito violenta. Para mim tudo era intenso. Lembro-me dos voos constantes de helicópteros a caminho do hospital transportando feridos da guerra. Lembro-me de ouvir rajadas de metralhadora à noite. Uma realidade estranha.

Mas tinha coisas bastante simpáticas e curiosas. Foi o lugar em Africa que vi mais diferenças tribais. Havia dezenas de etnias negras. A diferença entre eles era tão notória que se distinguiam visualmente. Os islamitas eram bastante altos e muito magros, havia outras etnias onde a constituição física destacava-se por serem bem entroncados e fortes, havia também mais pequenos e franzinos. A forma como trajavam era bem distinta de etna para etnia. Outra diferença que me impressionou era a forma como se expressavam artisticamente. Os Muçulmanos da Guiné trabalhavam o ouro ou a prata com um requinte e sofisticação invejável a qualquer Europeu. A cidade de Bafatá podia rivalizar com a de Gondomar pois os trabalhos eram quase filigrana. Porém havia outras tribos que o que usavam como acessórios, enfeites era feito de pedra, malaquite por exemplo e a inspiração vinha da protecção, funcionavam como amuletos, artefactos mais primitivos e toscos.

A escola, essa era igual a todas as escolas que já tinha frequentado só que aqui havia crianças de outras cores. Fiz a 2ª e parte da 3ª classe na Guiné Bissau. Ser branca e católica era minoria, 90% das crianças era nativa da Guiné. Facto que para mim não era problema e para os meus pais também não. Não havia problemas de integração, lá íamos com as batas brancas, não havia mochilas de marca, nem ténis sofisticados. Tudo feliz, tudo homogéneo embora fosse a verdadeira mixórdia cultural e religiosa. O único cunho de estarmos em território Português era o cantar o hino de manhã. Aprendia, estudava, brincava, não havia insultos, “bullyIng” ou agressões verbais ou físicas.

Fora da escola brincávamos com as outras crianças nativas ou não em casa, na rua. Lembro-me de ter uma amiga a Adriana, uma Guineense grande que andava na minha escola e vivia do outro lado da rua numa cubata. Nunca senti que se interessasse pelo nosso modo de vida ou estranhasse os nossos bens quando ia lá a casa. A única coisa que ela adorava era o frigorífico e só porque a minha mãe fazia uma espécie de gelados com sumos e aquilo ia para o frigorífico solidificar. O nosso relacionamento com o nativo era fácil e natural.

Não havia nenhuma espécie de extravagâncias nem requintes nas nossas vidas neste Ultramar. Antes pelo contrário, era tudo muito minimalista como se diz agora. Havia uma livraria que recebia o Asterix, quando chegava era a minha loucura, o verdadeiro luxo.

Havia um pobre cinema, que passava uns filmes dos anos 50. O momento de maior diversão que por lá havia era o bingo na messe de oficiais. Uma vez num jogo de bingo em que fiz o cartão completo escolhi como prenda uma boneca bem negrinha com uma carapinha generosa, estava encantada com a minha nova “filha”.

Quando me vêm falar de racismo e comportamentos xenófobos dos Portugueses revolto-me pois estive lá e vivi sempre o oposto. Tanto éramos próximos que uma das recompensas num jogo realizado numa messe de oficiais era uma boneca negra e ninguém se sentiu incomodado ou agredido por tal objecto, era naturalmente aceite.

O meu pai foi ferido gravemente, duas as minhas irmãs tiveram que regressar ao Continente e ir viver com os meus avós porque estavam sempre doentes na Guiné. A vida era exigente, sofrida e dura para os meus pais. Mas nunca foi parte da equação deixar o meu pai a viver a guerra sozinho.

Aprendi a amar aquele lugar feito de tantos contrastes. Com a natureza em efervescência constante, onde tínhamos que manter os 5 sentidos sempre despertos e alertas.

Tenho saudades das trovoadas fabulosas e estrondosas que por lá aconteciam, das chuvadas violentas que largavam da terra um cheiro único, tenho saudades das cores e do cheiro dos cajueiros, de toda aquela paisagem rude e agreste, dos pântanos e das ostras. Daquele pequeno mundo onde coexistiam gentes tão diferentes. 

Essa era a minha percepção nos meus fabulosos 8 anos da minha existência na Guiné no dia 24 de Abril de 1974.

 

 

 

 

 

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